J. veio de África para Portugal sozinho, sem os pais nem os irmãos, tinha 15 anos. Por cá conheceu o casal Z. e G. com quem estabeleceu laços de amizade tão fortes que com o passar dos anos pareciam pertencer à mesma família. Por não terem filhos, Z. e G. fizeram de J. seu filho, orientado-o na difícil missão de se fazer um homem digno e respeitável. J. reconhecia isso e vivia na esperança duma oportunidade mostrar a sua gratidão a tão amável casal que substituíra os seus pais deixados em África, por obra e graça das convulsões de Abril.
Os anos foram passando e, inesperadamente Z. teve um dia que ser levado de urgência para o hospital, vindo a falecer umas horas depois, vítima de ataque cardíaco. Nada mais a fazer que não tratar do funeral e enterro do homem. Contactada a agência funerária, feito o levantamento dos custos, só faltava ir ao banco buscar o dinheiro. Acontece, porém que Z. tinha o dinheiro todo numa conta pessoal e só com um cheque por si assinado se poderia fazer o saque. Havia muitos cheques lá em casa, mas nenhum assinado em branco. Perante a enorme frustração de G., J. viu ali a sua oportunidade para fazer qualquer coisa por quem tanto tinha feito por si. Decidiu, então forjar a assinatura de Z. num cheque que lhes permitisse sacar o dinheiro do banco. Z. tinha uma assinatura tão pessoal que J. passou muitas horas madrugada adentro a praticar, até conseguir assinar um cheque, quase na perfeição. Na manhã seguinte lá foi com G. até ao banco, com o cheque assinado em branco. G. tremia por todos os lados temendo pelas consequências do crime de falsificação que estavam cometendo. J. mantinha-se calmo e isso ajudou a mulher a sossegar um pouco. Com o cheque na mão, o funcionário do banco dirigiu-se a um colega a quem o entregou, deixando as duas alminhas à espera ao balcão por cerca de cinco minutos. Após a leitura dos dados no computador, e a consulta a fichas e arquivos, finalmente o segundo funcionário dirigiu-se a G. e J. com o cheque na mão. Tremeram os dois. Seria a assinatura?
- Bem - disse o homem - só existem mil e duzentos escudos na conta. Se quiser levantar, pode preencher o cheque.
E mais não disse, afastando-se. G. e J. entreolharam-se e G. disse:
- Tanto trabalho... e o risco de sermos presos por falsificação da assinatura por ... um conto e duzentos?! Vamos embora - disse, decidida e saiu do banco.
J. segui-a, mas não sem antes acabar de emitir o cheque ao portador e sacar os mil e duzentos escudos. Quando chegou perto de G., J. estendeu-lhe as notas dizendo:
- Há-de servir para alguma coisa!
- E eu já sei para quê. Vamos - disse ela, pegando no dinheiro e caminhando com passos decididos até entrar numa loja de utilidades para o lar. Olhou, e foi descobrir uma frigideira de metal aparentemente forte e resistente e a custar pouco menos de um conto e duzentos. Pagou, recusou o troco e saiu, seguida de J., que não conseguia entender nada do que se estava a passar. De novo na rua, G., com a frigideira em punho, agitando-a, olhou para J. e disse-lhe em tom quase ameaçador:
- Quero que me prometas uma coisa: quando eu morrer, enterra-me com esta frigideira! Eu sei que me vou encontrar com o Z. onde quer que ele esteja, no céu ou no inferno, e quando isso acontecer...
Pouco mais de vinte anos depois G. veio a falecer vítima de doença prolongada. Não havia assinaturas para falsificar, mas havia uma frigideira. E dentro de uma gaveta do reoupeiro no quarto de G. lá estava ela, novilha em folha, à espera de ter finalmente utilidade. E, foi de facto, enterrada juntamente com G.
Cá para nós, o que terá levado G. a guardar a tal frigideira durante mais de vinte anos? Fé cega no reencontro? Sede de vingança? Amor?
Acontece que acontece
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